Dandara


Por Nei Lopes – 20/11/2014

“Nome de Dandara nasceu no fundo das eras mais profundas do que o mar. Velhos manfus [?] contavam que no tempo em que a grande cachoeira ainda pertencia ao poderoso n’gombe, existiu uma orixá de peitos sempre pejados chamada Dandara. Um dia a orixá, famosa caçadora de rinocerontes, acuou num tenebroso socavão da floresta de Ogum uma presa acompanhada de cria nova. Percebendo que o pequeno animal tinha fome, Dandara largou por terra a lança afiada, agachou-se e aconchegou-o aos peitos fartos, mas, enquanto amamentava, a fêmea enfurecida e investiu, matando Dandara e a própria cria”…

E assim foi que, no texto delirantemente fantástico de seu romance épico “Ganga-Zumba” (Edições de Ouro, s/d, cap. 86, p. 138), em que mistura mitos, expressões lingüísticas e origens étnicas diferentes e distantes no mesmo ambiente; foi assim que o grande escritor mineiro João Felício dos Santos (1911-1989), certamente sem querer, criou um dos maiores mitos da História do Brasil – a lenda de Dandara, o amor de Zumbi. Vejamos por quê.
Os textos que fundamentam a História dos quilombos de Palmares baseiam-se em relatórios militares encomendados pelas autoridades coloniais. Foram escritos sob a ótica dos dominadores, repressores daquela subversão, e serviam principalmente para exaltar não as façanhas dos aquilombados, mas a atuação dos integrantes das expedições de captura ou extermínio. Esses, sim, são citados nominalmente; enquanto que os quilombolas nominados são, salvo engano, apenas aqueles que deram nomes a suas comunidades, como era comum na Angola colonial: Dambrabanga, Andalaquituxe, Ganga Zumba, Zumbi, etc.

Falamos em Angola; porque o “quilombo” é uma instituição social congo-angolana. E aí apontamos a primeira armadilha da ficção de João Felício: ele associa o nome “Dandara” ao de um orixá, quando sabemos que o termo “orixá”, bem como sua conceituação, não pertence ao universo banto, angolo-conguês, e sim ao iorubano, da atual República da Nigéria, no Golfo da Guiné.

E dizemos mais: num contexto profundamente sexista, quanto era o do século XVII, no Brasil e na Europa, em relatórios de guerra, salvo eventuais exceções, mulheres são citadas apenas como registro estatístico. Exemplo: “Constam os Palmares de negros que fugiram a seus senhores (…) e com mulheres e filhos habitam em um bosque de tão excessiva grandeza que fará maior do que todo o reino de Portugal” (relatório em M.M. Freitas, “Reino negro de Palmares”, Bibliex, 1988, p. 345).

Na História palmarina, a única menção a mulher de que temos notícia, salvo prova em contrário, é a feita à idosa “Madalena, negra de Angola”, que seria “sogra” de um dos filhos do “rei” Ganga-Zumba (cf. Benjamin Péret. “O quilombo de Palmares”, Lisboa, Fenda Edições, 1988, p. 26).

Observemos, ainda, que esse livro do francês Péret estampa uma farta nominata; mas toda ela referente ao período em que a liderança de Palmares era exercida por Ganga-Zumba e não por Zumbi, que comandou a decisiva dissidência do grupo.

Sobre isso assim escreve o historiador Ivan Alves Filho: “No mês de novembro de 1678, à frente de um grupo de 140 pessoas, Ganga-Zumba se deslocou para Recife a fim de formalizar o acordo de paz. Ele foi nomeado oficial do exército português e dois de seus filhos foram adotados pelo Governador (…). Assim, Ganga-Zumba e seus partidários vão viver em Cucaú, uma região situada a 32 quilômetros de Serinhaém” (in “Memorial dos Palmares”, Brasília, Fundação Astrojildo Pereira/Editorial Abaré, 2008, p.103).

Esse fato histórico nos remete de pronto ao ocorrido no Congo, cerca de duzentos anos antes, quando, em seus primeiros contatos com os exploradores portugueses, a corte do poderoso Reino concorda em receber os sacramentos católicos e nomes cristãos como Afonso (ex-Nzinga Mbemba), Pedro (ex-Nkanga Mbemba), Francisco (Nzinga Mpudi), Diogo (Nkumbi-a-Mpudi), etc. As rainhas e princesas não mereceram nenhum registro histórico.
Vejamos, também, que o fato de Ganga-Zumba ter fechado acordo com os colonialistas fez com que sua época fosse mais detalhada nos documentos, inclusive com menções heróicas tais como a uma pistola de prata com que teria cometido suicídio, versão mais tarde substituída por homicídio mediante envenenamento. Já Zumbi não era “nobre”, nem “herói”: era “bandido, terrorista, guerrilheiro”. Como seus ancestrais africanos, que resistiram até não poder mais à cobiça e às armas lusitanas.

O “Zumbi” de João Felício dos Santos é um herói mítico, inclusive confundido com Ganga-Zumba. Seus quilombolas ora falam quimbundo e quicongo (idiomas bantos), ora falam iorubá. Cultuam orixás (forças naturais nagôs, iorubanas) com cantigas do vasto universo congo. E sua “Dandara” é, como visto acima, uma clara referencia a Oiá-Iansã, nome tutelar do trecho nigeriano do rio Níger, que lá é chamado “Odo-Oya” (rio de Oiá).
Reforçamos dizendo que, anos atrás, em um trabalho intitulado “Onomástica Palmarina” (publicado na revista “Carta”, Brasília, Senado Federal, Gabinete do Senador Darcy Ribeiro, n. 13, nov. 1994, pp. 55-62) conseguimos estabelecer, pelo menos em hipóteses, explicações etimológicas para quase todos os nomes próprios, de personagens da saga quilombola. Exceto o de “Dandara”.

Sobre esse nome, para nós, o que ecoa próximo é apenas o de Elesbão Dandará, um dos lideres da Revolta dos Malês, em 1835. Mas “Dandará” é um nome hauçá, língua em que o elemento “dan” corresponde ao árabe “ibn” e ao hebraico “ben”, com o significado de “filho de”.

Acreditamos, então, salvo prova em contrário, que a “Dandara” de Zumbi é um personagem fictício. O que, entretanto, não nos impede de louvar e apoiar o esforço das mulheres afro-brasileiras no sentido de termos, cada vez mais, no panteão das heroínas afrodescendentes, figuras exemplares, merecedoras de reverência e até mesmo veneração. Elas existiram e existem, sim. E não são poucas.

https://www.geledes.org.br/dandara-ficcao-ou-realidade/

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