Milton Santos: A Construção da Geografia Cidadã

Denise Elias

http://www.blogintellectus.com.br


Milton Santos foi o geógrafo que mais visibilidade deu à Geografia brasileira. Sua militância permanente em prol da cidadania e da ética extrapolou os muros acadêmicos. Produziu um obra numerosa e complexa, uma verdadeira teoria geográfica do espaço, que apresenta diferentes fases e faces e reclama ainda muita reflexão. O presente texto apresenta uma das muitas possibilidades de classificação de sua obra. Considera, para tanto, que seu pensamento e a organização de seu trabalho percorre dois caminhos básicos, desde o campo das reflexões filosóficas sobre a natureza do espaço geográfico, até trabalhos de natureza empírica, quando buscava a reconstrução intelectual do mundo a partir das experiências específicas, dando destaque à categoria lugar.

Em muitos aspectos, Milton Santos foi um homem à frente de seu tempo. Na era na qual muitos proclamavam o ‘fim da história’, ele introduziu o pensamento geográfico no centro do pensamento social do país, deu visibilidade à geografia brasileira e auto-estima aos geógrafos. Sua própria visibilidade e de sua obra extrapolaram os muros acadêmicos em 1994, quando ganhou o maior prêmio internacional da Geografia, o Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da especialidade, atribuído por universidades de vários países. Naquele momento, sua visibilidade atingiu campos antes não imaginados, ultrapassando em muito o da Geografia e o do mundo acadêmico.

Privilegiados fomos os que pudemos desfrutar, de alguma forma, do seu cotidiano. A dor da partida é forte. Mas, ele continua vivo em sua obra. Resta-nos, assim, o consolo de senti-lo presente em cada um dos seus escritos e sua vasta obra continua nos instigando à descoberta, à pesquisa, ao novo e esta é uma forma de encontrá-lo, de aplacar as saudades e de ter esperança.

São muitas as lições que Milton Santos nos deixou e com ele aprendíamos não só sobre a geografia mas sobre a vida, como a de que o talento para a vida acadêmica é construído com muito trabalho metódico e cotidiano; que o verdadeiro intelectual não cede aos modismos da época e aos ‘cantos de sereia’ do sucesso fácil; que devemos lutar por uma universidade não atrelada ao mercado ou à técnica e que sem a curiosidade, o homem não chegará a lugar nenhum. Enumerá-las exige a reflexão de toda uma vida. De suas metáforas, conceitos e categorias ainda há muito por ser processado.

Aprendemos com ele que o mais importante é olhar para frente, é pensar o futuro. Assim, homenagea-lo é seguir seu exemplo de coragem, dedicação e perseverança, intensificando o uso e aperfeiçoando sua vasta obra, incorporando sua bibliografia em nossas disciplinas e em nossas reflexões sobre a Geografia e sobre o mundo. É seguir os ensinamentos que ele nos deixou, o seu exemplo de trabalho sério e cotidiano; de militância no campo das idéias; de liberdade de pensamento; de ideais de solidariedade e, especialmente, de otimismo e esperança quanto ao futuro da Geografia, da sociedade e do homem. É acreditar que um outro mundo é possível. Um mundo no qual certamente vingarão os ideais de solidariedade e cidadania.

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Fonte: http://www.controversia.com.br
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