A Mata Atlântica agradece

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Sérgio Lucena Mendes
20140219
Augusto Ruschi fundou o Museu de Biologia, em Santa Teresa, em 1949, homenageando o renomado cientista do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Cândido Firmino de Mello Leitão. Naquela época, um Museu no interior do Espírito Santo parecia uma mera excentricidade do jovem naturalista. Com o passar do tempo, Augusto Ruschi foi adquirindo notoriedade nacional e internacional, pelos seus estudos com orquídeas, beija-flores e, principalmente, pela sua luta tenaz e incansável pela conservação da Mata Atlântica.

Além de seu destaque como naturalista, Ruschi conseguiu estruturar o Museu de Biologia Prof. Mello Leitão com biblioteca, laboratórios, estações de pesquisa e formar uma importante coleção científica, com ênfase em plantas e animais da Mata Atlântica. Entretanto, em seus últimos anos de vida, ele percebeu que o Museu não poderia sobreviver como organização privada e trabalhou pela sua incorporação ao Governo Federal, que foi efetivada em 1983, pela Fundação Nacional Pró-Memória, órgão do Ministério da Cultura. Ruschi faleceu em 1986, mas deixou o Mello Leitão em condições de dar continuidade ao trabalho que vinha realizando.

A partir de 1987 o Museu foi aberto à visitação pública e passou a atrair jovens pesquisadores de vários lugares do Brasil, que vinham realizar suas pesquisas, dissertações e teses. O Boletim científico do Museu voltou a ser editado e as matas de Santa Teresa e entorno passaram a ser alvo de vários estudos de botânica, zoologia e ecologia, crescendo a demanda por uma instituição científica melhor estruturada.

Entretanto, esse crescimento ficou limitado por causa do vínculo institucional ao Ministério da Cultura, que não tem por prioridade a pesquisa biológica. A partir de meados de 1990 começamos a negociar a transferência do Museu para outro ministério. Esse trabalho, que a princípio envolvia a Diretoria e pesquisadores do Museu, foi tomando corpo, passando a sensibilizar a Prefeitura de Santa Teresa, outras instituições do Estado, como a UFES, bem como cientistas e organizações de outros estados.

Em primeiro momento, foi estudada a transferência do Museu para o Ministério do Meio Ambiente, mas o formato proposto não nos pareceu muito adequado. No início da década de 2000 o Conselho Científico definiu como sua prioridade a transferência do Museu para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Além de sensibilizar técnicos do Ministério, o Conselho sensibilizou lideranças políticas do Espírito Santo, que passaram a atuar em prol dessa causa.

Depois de muitas idas e vindas, foi definido o formato institucional, e o Governo Federal submeteu ao Congresso Nacional, em 2010, o Projeto de Lei que, dentre outras coisas, previa a transferência do Museu Mello Leitão para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, transformando-o no Instituto Nacional da Mata Atlântica. A SAMBIO – Associação de Amigos do Museu passou atuar ativamente na mobilização dos congressistas e da imprensa, reforçando o apoio do Governo do Estado e da bancada capixaba. O Projeto tramitou superando obstáculos na Câmara dos Deputados e no Senado, sendo, finalmente, aprovado em dezembro de 2013.

No dia 05 de fevereiro último foi sancionada a Lei 12954/14, consolidando a vitória de uma luta que vem sendo travada há quase 20 anos. A criação do Instituto garante a continuidade do trabalho de Augusto Ruschi, atende a uma antiga demanda da comunidade científica por um instituto dedicado à Mata Atlântica e representa uma grande oportunidade para o estado do Espírito Santo, que deverá alcançar um papel de destaque na ciência da biodiversidade.

Mas o antigo nome, Museu de Biologia Prof. Mello Leitão, que está completando 65 anos, certamente não deve, nem pode ser esquecido. O nome já está incorporado à história de Santa Teresa, do Espírito Santo e do Brasil, e deve ser oficialmente preservado. O novo Instituto, certamente, precisará de uma nova área para expandir suas atividades e construir laboratórios e prédios para coleções. A área física onde hoje funciona o Museu, no centro de Santa Teresa, pode continuar com o nome dado por seu fundador, como um órgão do Instituto Nacional da Mata Atlântica, dedicado às atividades de educação e difusão científica.

Sérgio Lucena Mendes é Professor da UFES e ex-Diretor do Museu Mello Leitão

Uma ideia sobre “A Mata Atlântica agradece

  1. Parabéns a todos que lutaram pela criação do INMA de forma tão incisiva. A vitória é do Espírito Santo, que passa a de coadjuvante a estrela ascendente no cenário da pesquisa para a conservação da Mata Atlântica!

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