O Método Científico

Quando tentam compreender o método científico, os filósofos desenvolvem diversas concepções da racionalidade científica e interpretam a história da ciência de acordo com essas concepções. Filosofias da ciência diferentes produzem assim reconstruções racionais diferentes para a história da ciência.

Mas em que diferem essas reconstruções?

Será que alguma delas é superior às restantes?

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A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Samuel Kuhn (1922–1996), é uma das obras mais influentes em filosofia da ciência; menos pela solidez de seus argumentos do que pelo elevado número de divergências e debates que tem causado. Originalmente publicado em 1962 e traduzido para mais de vinte línguas, este livro constitui uma das principais fontes de argumentos para quem defende o relativismo epistêmico e científico. Opõe-se, principalmente, ao conjunto de crenças compartilhadas pelos filósofos do Círculo de Viena e seus sucessores. Sobretudo, o debate com Karl Popper (1902–1994) e Imre Lakatos (1922–1974) foi intenso.

A teoria que Kuhn defende em seu livro sobre o avanço do conhecimento científico é uma teoria contrária à de que o conhecimento é produzido mediante um processo de acumulação de informações. Segundo ele, o processo acontece através de rupturas completas e súbitas de um paradigma para o outro. Nada do que foi pesquisado ou organizado no paradigma anterior será aproveitado no desenvolvimento futuro, pois são modificações de mundos e de nada adianta utilizarmos dados de um mundo em outro mundo totalmente diferente. A produção de conhecimento não é cumulativa e progressiva, mas fragmentada; assim, “(…) a transição [entre paradigmas] tem de ocorrer subitamente (embora não necessariamente num instante) ou então não ocorre jamais.” (pág. 192).

Eduardo Dayrell

O desenvolvimento da atividade científica nos últimos séculos é inquestionável, pois a necessidade do homem de conhecer e ampliar seus domínios produz transformações constantes na natureza. Porém foi no século XX que a atividade científica provocou um enorme debate a respeito do significado e importância da própria ciência, principalmente quando buscou-se estudar as possibilidades e os limites da investigação científica através da falsificabilidade, tendo Sir. Karl Popper como representante máximo. Thomas S. Kuhn criticou a teoria popperiana, assim como sua teoria também sofreu diversas críticas dentro da comunidade científica, destacando-se a Filosofia da Ciência de Imre Lakatos. Através de sua concepção denominada “Programas de Pesquisas Científica”, Lakatos analisou as críticas feitas por Kuhn ao modelo vigente de racionalidade científica proposta por Popper, desenvolvendo assim, sua visão epistemológica do avanço científico, que tem como base, não uma “teoria isolada”, mas uma “série de teorias”, ou seja, um programa de pesquisa. Portanto, buscar entender essa discussão sobre o desenvolvimento da ciência tendo como base esses três epistemólogos contemporâneos, torna-se uma questão sine qua non para respondermos as questões levantadas sobre o progresso científico.

Marcos Roberto Alves Oliveira

Qual é, então, o traço distintivo da ciência?
Teremos de capitular e concordar que uma revolução científica é uma mudança irracional de adesão, que é uma conversão religiosa?
Thomas Kuhn, um distinto filósofo da ciência americano, chegou a esta conclusão depois de descobrir a ingenuidade do falsificacionismo de Popper. Mas se Kuhn tem razão, então não há demarcação explícita entre ciência e pseudociência, não há distinção entre progresso científico e decadência intelectual, não há um padrão objectivo de honestidade.
Mas que critérios pode ele então apresentar para demarcar o progresso científico da degenerescência intelectual?

Imre Lakatos, «Ciência e Pseudociência», in História da Ciência e suas Reconstruções racionais, p.16.

Imre Lakatos foi um dos principais nomes da filosofia da ciência no século XX. O seu nome está geralmente associado ao termo “programa de pesquisa”, expressão usada por Lakatos com intuito de explicar o desenvolvimento da ciência empírica.

Da crítica ao positivismo emerge uma nova abordagem racionalista da ciência que se caracteriza pela preocupação em confrontar o trabalho do filósofo com a História da Ciência, sendo Lakatos o primeiro que colocou o problema de modo elaborado.

Para ele, a ciência deveria ser estudada a partir de suas estruturas mínimas de compreensão histórica, bem como os momentos históricos onde ocorreram mudanças científicas significativas, ou seja, momentos onde determinados programas são substituídos por outros.

Essa preocupação, enquanto busca de uma reconstrução histórica, assinala o comprometimento espistomológico de Lakatos com a explicação racional numa época de descrédito na possibilidade de explicação do progresso científico.

Bases Epistemológicas da Ciência Moderna
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