Sem saída

Artigo de Luiz Martins publicado no jornal O Globo.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2011, divulgado em agosto, é uma excepcional radiografia da Educação, particularmente no estado do Rio. O levantamento traz um saldo positivo, qualquer que seja o viés pelo qual seja analisado. Em relação aos aspectos gerais dos programas educacionais, é estimulante observar que o Rio superou a meta estabelecida para o ano passado. E, dissecados no varejo, os números trazem ensinamentos que não podem ser desprezados na abordagem da situação das salas de aula.

Tome-se o exemplo do Colégio Estadual Waldemiro Pita, primeiro lugar no ranking das escolas fluminenses de ensino fundamental e segundo em todo o País. Não é pouca coisa, ainda mais se forem levadas em conta algumas circunstâncias sociais que o cercam. O colégio fica em Monte Verde, no distrito rural de Cambuci, no Noroeste do estado. Ali, a realidade é semeada mais por enxadas do que por aparelhos eletrônicos de última geração, e a renda familiar fica bem abaixo de outros centros – digamos – mais desenvolvidos.

É com esse perfil que as salas de aula de Monte Verde desbancaram escolas tradicionalmente mais bem ranqueadas, como o Pedro II, os Colégios de Aplicação (Caps) e o Colégio Militar. Essa bem-sucedida experiência mostra que uma política pedagógica acertada pode mudar a realidade educacional, por mais que os indicadores sociais sejam travas em potencial.

O aspecto negativo é que, apesar do bom desempenho dos alunos, há circunstâncias que lhes barram o caminho da formação completa. Esse pequeno centro de excelência parece um fim em si, pois a maioria dos que ali estudam não ingressa na faculdade. Certamente, não por deficiências culturais, mas porque a realidade que os envolve não lhes oferece grandes oportunidades de seguir em frente.

Temos um exemplo do grande nó em que a Educação permanece atada. Apesar dos avanços obtidos na última década no ensino fundamental, o País parece viver ainda de conquistas pontuais. Não é o caso de negar vitórias, ainda que parciais. Elas são importantes para dar combustível a um processo de crescimento em que se deve levar em conta fatores objetivos (dificuldades sociais de uma nação que ainda tem muitas demandas a enfrentar) e subjetivos (falta de visão na implementação de políticas estruturais, por exemplo).

É bom saber que o País melhora seus indicadores no ensino fundamental, mas é desanimador, por exemplo, observar como é medíocre a participação do Brasil nos rankings internacionais que medem a qualidade das universidades, onde, em última análise, as nações forjam seu crescimento.

Essa realidade não se muda apenas com vitórias pontuais. O Brasil precisa levar mais a sério o compromisso com a Educação, formulando políticas que ofereçam aos cidadãos oportunidades de crescimento cultural e intelectual, do ensino básico à universidade. Esse foi o caminho percorrido por todas as nações que pularam do atraso para o desenvolvimento. Esse é um caminho do qual o Brasil não pode fugir.

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